
Análise destaca redução real dos recursos, cortes em programas estratégicos e impacto do custo do crédito sobre a capacidade de investimento dos produtores rurais

O Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro) divulgou uma análise sobre o Plano Safra 2026/27, na qual avalia que as elevadas taxas de juros são o principal fator limitador da efetividade da política de crédito rural. Intitulado Plano Safra 26/27: Um Plano Limitado pelos Juros Elevados, o estudo afirma que, embora o governo tenha ampliado os recursos destinados ao programa, o custo do financiamento continua sendo um desafio para os produtores.
Segundo a publicação, o Plano Safra Empresarial foi anunciado com R$ 525,1 bilhões, um aumento nominal de 1,7% em relação à safra anterior. No entanto, descontada a inflação acumulada pelo IGP-DI, o montante representa uma queda real de 0,8%.
A FGV observa que a principal mudança ocorreu na composição dos recursos. Os valores destinados às operações de custeio e comercialização foram reduzidos de R$ 414,7 bilhões para R$ 384,9 bilhões, enquanto os recursos para investimentos cresceram de R$ 101,5 bilhões para R$ 140,2 bilhões. Apesar dessa recomposição, os pesquisadores ponderam que o ambiente de juros elevados reduz a capacidade dos produtores de contratar financiamentos, especialmente em um cenário de margens mais estreitas e maior seletividade na concessão de crédito pelas instituições financeiras.
O estudo também chama atenção para a redução de recursos em programas considerados estratégicos. O Moderfrota, destinado ao financiamento de máquinas agrícolas, teve seu orçamento reduzido de R$ 9,5 bilhões para R$ 3,7 bilhões, uma queda de 61%. Já o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA) registrou redução de 24,4% nos recursos disponíveis. Para a FGV, esses cortes contrastam com o discurso de fortalecimento da infraestrutura produtiva.
Para ilustrar os efeitos das taxas de juros sobre a atividade agropecuária, o documento apresenta exemplos hipotéticos. Em um deles, um produtor de soja que financia integralmente um custo de produção de R$ 3 mil por hectare a uma taxa real de aproximadamente 4% ao ano teria seu custo elevado para R$ 3.120, aumentando o custo por saca de R$ 60 para R$ 62,40.
Em outro exercício, a FGV simula o financiamento de uma máquina agrícola no valor de R$ 600 mil, com juros reais de aproximadamente 7,5% ao ano e prazo de cinco anos. Nesse cenário, o valor total pago chegaria a R$ 716.220, dos quais R$ 116.220 correspondem aos encargos financeiros, elevando o custo da aquisição em 19,4%.
Na avaliação dos pesquisadores, mesmo as taxas consideradas favorecidas permanecem elevadas quando analisadas em termos reais. O estudo conclui que esse cenário pode limitar a contratação de crédito rural, comprometendo investimentos em tecnologia, modernização das propriedades e expansão da produção agropecuária. Como alternativa, a publicação sugere a adoção de mecanismos que vinculem parte das taxas de financiamento à evolução da taxa Selic, preservando a competitividade do crédito rural ao longo dos contratos.