
Especialista alerta que preços elevados não eliminam riscos da atividade e exigem planejamento para garantir a sustentabilidade dos negócios rurais

A valorização do café nos últimos anos trouxe novo fôlego ao setor e ampliou as perspectivas de rentabilidade para os produtores. No entanto, o cenário favorável de preços não reduz os desafios enfrentados pelo agronegócio. Ao contrário, torna ainda mais necessária a adoção de práticas de governança capazes de fortalecer a gestão, preservar o patrimônio e preparar as empresas para enfrentar oscilações de mercado.
A avaliação é da advogada Andréa Navarro, especialista em Direito Empresarial, que destaca que o aumento do valor econômico da atividade amplia a responsabilidade sobre as decisões estratégicas do negócio. Segundo ela, fatores como eventos climáticos, volatilidade dos preços, custos de produção, acesso ao crédito e sucessão familiar continuam representando riscos importantes para a atividade rural.
Nos últimos anos, a cafeicultura enfrentou períodos de seca, temperaturas elevadas e geadas, que reduziram a produtividade em diferentes regiões produtoras e contribuíram para a valorização da commodity. Ainda assim, a especialista ressalta que um ciclo de preços elevados não garante estabilidade financeira ao produtor, que muitas vezes convive com dívidas acumuladas, necessidade de investimentos e custos crescentes.
Nesse contexto, a governança passa a desempenhar papel estratégico, especialmente em propriedades que ampliam sua produção, recebem novos investidores ou passam por processos de sucessão familiar. A definição de regras claras para a tomada de decisões, a delimitação das responsabilidades dos administradores e a organização da estrutura societária são apontadas como instrumentos capazes de reduzir conflitos e dar maior segurança ao crescimento dos negócios.
Outro ponto destacado é o planejamento sucessório. Para Andréa Navarro, a continuidade da atividade rural depende não apenas da transferência do patrimônio entre gerações, mas também da criação de mecanismos que assegurem a gestão eficiente da empresa e preservem sua capacidade de gerar valor no longo prazo.
A especialista também chama atenção para os riscos de decisões tomadas durante períodos de forte valorização da commodity. A expansão acelerada da produção, a aquisição de novas áreas e o aumento do endividamento devem ser avaliados com cautela, considerando que o mercado agrícola permanece sujeito a ciclos de alta e baixa, além de fatores climáticos e econômicos que podem alterar rapidamente o cenário.
Na avaliação da advogada, a governança não elimina os riscos inerentes ao agronegócio, mas cria mecanismos para que eles sejam identificados, avaliados e administrados de forma mais eficiente. "Quanto maior o valor econômico envolvido, maior tende a ser o custo de deixar as decisões estruturais para depois que os conflitos surgirem", afirma.
Para a especialista, o momento vivido pela cafeicultura evidencia que crescimento econômico e gestão estratégica precisam caminhar juntos. Mais do que aproveitar um período de preços elevados, o desafio é construir estruturas capazes de garantir a continuidade do negócio e sua competitividade ao longo das próximas gerações.