
Projeto de 24 meses terá pesquisas nacionais e apoio a cinco municípios

A Embrapa Alimentos e Territórios vai desenvolver, ao longo de 24 meses, um projeto para investigar o comportamento das famílias brasileiras em relação ao consumo e ao desperdício de alimentos. A iniciativa, financiada pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), também prevê apoio a governos locais na elaboração de ações voltadas à construção de sistemas alimentares urbanos mais sustentáveis.
Batizado de “Sistemas alimentares circulares: envolvendo as cidades na transição”, o projeto será liderado pelo analista de Pesquisa e Desenvolvimento Gustavo Porpino, com participação da pesquisadora Flávia Galvão Cândido como colíder. A iniciativa reúne pesquisa, capacitação de gestores públicos e mobilização de instituições parceiras.
Os resultados deverão subsidiar a Estratégia Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional nas Cidades, Alimenta Cidades, e a II Estratégia Intersetorial para Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos no Brasil, além de apoiar programas e planos municipais.
O trabalho será dividido em quatro frentes. As pesquisas vão avaliar as barreiras que interferem nas decisões de compra e no consumo de alimentos e os fatores comportamentais, culturais e ambientais relacionados ao desperdício dentro das residências. Outra frente apoiará municípios na elaboração e implementação de planos locais, enquanto a quarta será dedicada à mobilização e comunicação dos resultados.
Duas pesquisas de abrangência nacional serão realizadas com apoio de ferramentas de inteligência artificial para estimar o consumo e o desperdício de alimentos. Uma delas analisará fatores como preço, acesso, disponibilidade, falta de tempo, praticidade, hábitos familiares, preferências, ambiente alimentar e publicidade. A outra buscará identificar as causas do desperdício nas residências e os fatores que podem ser modificados por meio de políticas públicas.
Na avaliação da pesquisadora Flávia Galvão Cândido, o projeto parte de um cenário em que diferentes problemas relacionados à alimentação coexistem no país, como fome, consumo elevado de ultraprocessados e desperdício, com impactos maiores sobre populações socialmente vulneráveis.
Cinco municípios participantes da Estratégia Alimenta Cidades receberão capacitação e suporte para implementar ações de melhoria do ambiente alimentar e redução do desperdício. A metodologia será construída em conjunto com as administrações municipais, considerando as características de cada território.
A proposta também busca garantir continuidade às ações após o encerramento das gestões municipais. Para isso, o projeto pretende incentivar a inclusão das iniciativas em Planos Plurianuais ou em legislações locais, além da participação de conselhos de controle social.
Entre as medidas discutidas estão o estímulo a circuitos curtos de produção e abastecimento, o acesso a alimentos saudáveis, a agricultura urbana e periurbana, a ampliação da doação de alimentos para bancos de alimentos e a destinação adequada de resíduos orgânicos, incluindo compostagem e biodigestão.
A iniciativa dá continuidade a experiências desenvolvidas pela Embrapa no projeto Cidades e Alimentação, realizado entre novembro de 2022 e o primeiro semestre de 2024 com financiamento da União Europeia. A ação envolveu cidades brasileiras e europeias e permitiu, entre outros resultados, quantificar a geração de resíduos em feiras livres e identificar oportunidades relacionadas à economia circular.
Um dos resultados dessa experiência foi o projeto Recolheita, da Prefeitura do Recife. Entre dezembro de 2023 e março de 2026, a iniciativa recolheu 395,4 toneladas de resíduos orgânicos de feiras e mercados públicos e produziu 176,5 toneladas de adubo, evitando a emissão estimada de 304 toneladas de gases de efeito estufa.
O novo projeto também será integrado à mentoria em Economia Circular e Redução de Perdas e Desperdício de Alimentos, que reúne Embrapa, WWF-Brasil e Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), entre outras instituições. A proposta é aproximar conhecimento técnico dos desafios enfrentados pelas administrações municipais e apoiar a implementação de soluções adaptadas a cada território.
Financiado pelo MDS, o projeto tem ainda como parceiros a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Pacto Contra a Fome e a Universidade Federal de Viçosa (UFV). Ao final, estão previstos produtos de comunicação, um encontro entre gestores e instituições participantes e um documento com orientações e recomendações para políticas públicas.
A expectativa é que as experiências dos municípios participantes possam servir de referência para outras cidades e que os dados sobre consumo, ambiente alimentar e desperdício contribuam para o aperfeiçoamento das políticas nacionais e das ações locais de segurança alimentar e nutricional.