
Embrapa aponta ganhos em produtividade, reprodução e custos de alimentação

O uso de touros com mérito genético comprovado pode aumentar a eficiência produtiva e melhorar o retorno econômico da pecuária de corte. A avaliação foi apresentada pelo pesquisador Cláudio Magnabosco, da Embrapa Cerrados, durante a 34ª Expoabra, realizada no Parque Granja do Torto, em Brasília.
Na palestra “Impacto econômico de touros melhoradores na pecuária de corte”, Magnabosco destacou que a seleção genética precisa estar associada ao objetivo econômico de cada sistema de produção. Para o pesquisador, a pecuária brasileira ainda tem espaço para avançar em produtividade por área, qualidade da carne e eficiência no uso dos recursos.
Um dos indicadores apresentados durante o evento mostra a diferença de produtividade entre Brasil e Estados Unidos. Segundo dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a produção brasileira estimada para 2026 é de 12,35 mil toneladas equivalente carcaça (TEC), a partir de um rebanho de 195,5 milhões de cabeças. Isso representa 15,83 cabeças para cada TEC produzida.
Nos Estados Unidos, 86,7 milhões de cabeças produzem 11,81 mil TEC, o equivalente a 7,34 cabeças por TEC. Para Magnabosco, os números reforçam a necessidade de elevar a eficiência dos sistemas brasileiros.
“A palavra de ordem é eficiência de produção, e na pecuária de corte temos que atender à demanda do mercado. Precisamos tornar o sistema mais rentável”, afirmou.
Segundo o pesquisador, a escolha de reprodutores não deve ser baseada apenas na aparência do animal. Avaliações genética, genômica e funcional, além de testes de progênie e de desempenho, permitem identificar características de interesse econômico.
Entre os atributos que devem ser considerados estão fertilidade, precocidade sexual, eficiência alimentar, qualidade de carne e carcaça, crescimento, habilidade materna e desempenho à desmama.
Magnabosco chamou atenção para o uso de animais sem indicadores confiáveis de desempenho. Segundo ele, dos cerca de 320 mil touros avaliados para reprodução no Brasil, 80% dos reprodutores utilizados ainda são classificados como animais de baixo desempenho, chamados de “ponta de boiada”.
O problema ganha dimensão porque um único touro pode emprenhar, em média, de 25 a 30 vacas durante uma estação de monta. Dessa forma, características genéticas do reprodutor podem ser disseminadas para dezenas de descendentes e permanecer no rebanho ao longo das gerações.
As matrizes e novilhas também têm papel central nesse processo, já que permanecem por mais tempo no sistema produtivo e formam o estoque genético do rebanho.
Entre as características avaliadas pela Embrapa está a eficiência alimentar, que relaciona o consumo de matéria seca ao ganho de peso. O objetivo é identificar animais capazes de consumir menos alimento do que o esperado sem comprometer o desempenho.
Em uma simulação apresentada pelo pesquisador, um animal com eficiência alimentar superior proporcionou lucro de aproximadamente R$ 2,6 mil, 27% acima dos cerca de R$ 2 mil obtidos com um novilho médio.
Outro experimento, com mil animais confinados durante 90 dias, mostrou que o uso de animais eficientes poderia reduzir em 54 toneladas o consumo de matéria seca e gerar economia de R$ 264 mil no custo de produção.
O Teste de Desempenho de Touros Jovens (TDTJ), realizado pela Embrapa Cerrados desde 1998, também busca identificar reprodutores superiores. Ao longo de 27 anos, mais de 4,8 mil animais das raças Nelore, Tabapuã, Guzerá e Brahman foram avaliados.
Os animais são analisados quanto a crescimento, reprodução, funcionalidade e características de carcaça. Os resultados permitem classificá-los em categorias de desempenho e direcionar os exemplares de maior potencial para avaliações de eficiência alimentar.
A Embrapa também apresentou resultados da genética Nelore Brasil Genética Nelore (BRGN), desenvolvida pela Embrapa Cerrados para animais adaptados às condições do Cerrado.
Em uma simulação com mil matrizes e 800 bezerros nascidos por ano, o uso de touros BRGN, considerando um ganho adicional de uma arroba de carcaça por animal, poderia representar cerca de R$ 258 mil de receita adicional anual, com a arroba considerada a R$ 330.
Os dados apresentados também indicam diferenças no desempenho genético. A Diferença Esperada na Progênie (DEP) para peso ao sobreano foi de +25,12 kg para animais Nelore BRGN, ante média de +6,3 kg entre animais Nelore avaliados em programas de melhoramento. Para área de olho de lombo, os valores foram de +3,1 cm² para o BRGN e -0,56 cm² na média do Nelore.
A comparação também mostrou vantagem em peso de abate, rendimento de carcaça e custo diário de alimentação para o touro jovem BRGN avaliado.
Segundo Magnabosco, a avaliação genética também pode antecipar decisões no rebanho. Em uma comparação entre um touro jovem BRGN e um touro Nelore convencional de quatro anos sem avaliação, a acurácia para peso aos 210 dias foi de 70% contra 41%, enquanto para peso aos 365 dias ficou em 75% contra 47%.
O efeito da genética sobre a reprodução das futuras matrizes também foi destacado pelo pesquisador. Dados apresentados durante a palestra mostraram que a probabilidade de prenhez das filhas até os 30 meses variou de forma expressiva conforme o mérito genético dos pais.
Entre filhas de touros com DEP de 36% para probabilidade de parto até os 30 meses, apenas 8% emprenharam até essa idade. No grupo de touros com DEP de 49,5%, a taxa chegou a 47%. Já entre as filhas de reprodutores com DEP de 63%, 98% ficaram prenhes até os 30 meses.
Em outro exemplo, a diferença de eficiência alimentar entre dois touros confinados durante 90 dias representou economia de R$ 368,01 por animal. Considerando mil filhos e uma economia de aproximadamente R$ 4 por dia, o uso de um reprodutor eficiente poderia gerar economia de cerca de R$ 360 mil no mesmo período.
Para Magnabosco, a escolha do touro deve partir das necessidades do sistema produtivo e não apenas das características comerciais do animal ou do material genético disponível.
“O touro melhorador é uma ferramenta de lucro”, afirmou. Segundo o pesquisador, o ganho genético é cumulativo e permanente, podendo alterar a eficiência produtiva do rebanho ao longo das gerações.