A eficiência da inseminação artificial varia mais do que muitos pecuaristas imaginam. Mesmo com protocolos adequados e manejo bem conduzido, os resultados podem oscilar entre rebanhos e até mesmo entre lotes de fêmeas. Um dos principais fatores por trás dessas diferenças está na fertilidade do sêmen utilizado, característica que vem ganhando espaço nas decisões de compra e se mostrando decisiva para o sucesso dos protocolos de reprodução.
De modo geral, a fertilidade pode ser entendida como a capacidade de o material genético inseminado efetivamente emprenhar as vacas e gerar bezerros com genética superior. Na prática, ela se reflete em dois indicadores centrais: a taxa de prenhez e as perdas gestacionais.
A taxa de prenhez indica a porcentagem de inseminações que resultam em gestação. Na média dos rebanhos brasileiros submetidos à inseminação artificial em tempo fixo (IATF), esse índice gira em torno de 50%. Em situações de menor fertilidade, a taxa pode cair para cerca de 40%. Já a escolha de touros mais férteis, associada a um bom manejo nutricional, sanitário e reprodutivo, permite alcançar índices entre 60% e 65%, com impacto direto na eficiência e na rentabilidade do sistema.
As perdas gestacionais correspondem às vacas que emprenharam, mas perderam o bezerro ao longo da gestação. Embora mais difíceis de mensurar, estudos indicam perdas em torno de 7%, com maior incidência em novilhas do que em vacas adultas. Mesmo sendo menos visível ou de difícil mensuração, esse fator também interfere de forma relevante nos resultados reprodutivos.
A importância da fertilidade fica ainda mais evidente quando se observa a variação dos resultados a campo, mesmo em sistemas bem manejados. A inclusão desse critério na escolha do sêmen tem se mostrado um caminho consistente para elevar os índices de prenhez e reduzir perdas ao longo do processo.
Na Embrapa Gado de Corte, o tema vem sendo estudado a partir de bases de dados robustas, coletadas diretamente no campo. Atualmente, são analisadas informações de aproximadamente 3.300 touros da raça Nelore, a partir de resultados de inseminações realizadas em diferentes sistemas produtivos. Esses dados possibilitam identificar diferenças consistentes de fertilidade entre os machos e auxiliam programas de classificação utilizados pelas centrais de genética, além de estudos voltados à identificação de fatores genéticos e de qualidade seminal associados ao sucesso da prenhez e às perdas gestacionais.
Os ganhos ocorrem no curto e no longo prazo. De forma imediata, a maior fertilidade resulta em mais prenhez por protocolo. Ao longo do tempo, essa característica passa a ser incorporada ao rebanho. Embora a herdabilidade da fertilidade seja relativamente baixa, em torno de 3%, ela contribui para a evolução genética quando considerada de forma contínua, associada a outras características avaliadas, como as Diferenças Esperadas na Progênie (DEPs).
Para o pecuarista, a fertilidade não deve ser o único critério de escolha do sêmen, mas precisa integrar o conjunto de fatores analisados, juntamente com outras características importantes, como desempenho dos animais, ganho de peso à desmama, ao sobreano e área de olho de lombo, entre outros. A busca por boa taxa de prenhez pode ser combinada com duas estratégias complementares: a utilização de touros com fertilidade já verificada pelas centrais, que oferecem maior previsibilidade nos resultados, e a diversificação com touros jovens, que costumam apresentar genética mais recente e sêmen mais acessível. Nesse caso, a recomendação é trabalhar com um maior número de touros jovens diferentes, reduzindo riscos e ampliando a base genética do rebanho.
Na prática, essas decisões devem estar sempre associadas a um bom manejo nutricional, sanitário e reprodutivo. Nas últimas décadas, a inseminação artificial se consolidou como uma das formas mais eficientes de aumentar a produtividade da pecuária brasileira, impulsionada pelo avanço das pesquisas, da tecnologia e dos investimentos dos pecuaristas, com apoio de entidades como a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (ASBIA). A experiência no campo mostra que dificilmente uma fazenda que adota a inseminação artificial volta atrás. É nessa direção que precisamos seguir para contribuir com o contínuo avanço produtivo da atividade.
Por Ériklis Nogueira, doutor em Ciências Veterinárias e pesquisador em Reprodução Animal da Embrapa Gado de Corte
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